Plantando Águas: o início de um novo recomeço

Plantando Águas: o início de um novo recomeço

Categoria(s): Arquivo

Publicado em 10/09/2015

Por Isis Nóbile Diniz

Como assim plantar águas? Esta complexa pergunta foi feita inúmeras vezes durante o projeto Plantando Águas – inclusive, na capa da primeira edição da revista – elaborado pela Iniciativa Verde, colocado em prática em parceria com cerca de 20 instituições e patrocinado pela Petrobras. Para cultivar a água é necessário cuidar dela de diversas maneiras. Juntas, essas formas têm um impacto positivo maior sobre o bem. Juntando as partes, temos um todo. Foi isso que o projeto executou (clique aqui para ampliar a imagem abaixo).

Foram dois anos de muita estrada percorrida no interior do estado de São Paulo, calos nas mãos, dores nas costas, reuniões, suor no rosto para conseguir essa ação que parece impossível. Para plantar águas, precisamos de um conjunto de atividades práticas que se complementam: recuperar a floresta nativa; incentivar condutas mais naturais de cultivo e de criação animal; tratar os resíduos das casas (como o esgoto); realizar planos de uso das propriedades; ter água para usar na propriedade; acompanhar como estão os corpos de água das regiões selecionadas; e, a tarefa mais árdua e gratificante, gerar uma mudança de comportamento entre os integrantes (sejam eles pertencentes às organizações ou proprietários participantes) para que todo esse zelo tenha continuidade e seja propagado como sementes de dente-de-leão após serem sopradas. Recompensador é observar essas sementes brotando em torno para se espalharem e tomarem o campo, refletindo na cidade.

Assim, o projeto Plantando Águas é complexo. Resumidamente, a prática dele inclui a educação ambiental, a instalação de tecnologias sociais, a realização de oficinas, o plantio de árvores nativas e de Agroflorestas em áreas degradadas. Com relação à tecnologia social, foram inseridos nas propriedades: cisternas (para armazenar a água da chuva), fossas sépticas (que tratam a água do esgoto com biodigestão a partir do esterco de vaca) e jardim filtrante (um jardim ornamental que trata as águas das pias da casa). Foi feito o monitoramento da água em 22 pontos que fornecem o recurso para as casas dos participantes do projeto.

Foram plantados 75 hectares de árvores nativas em áreas degradadas de mata ciliar e de Sistemas Agroflorestais, incentivando a Agroecologia (uma forma de agricultura que polui menos o solo e a água). Para compartilhar e difundir os conhecimentos, foram realizadas oficinas e intercâmbios entre técnicos e proprietários rurais. Além disso, o projeto patrocinou a edificação de um Centro de Educação Ambiental, localizado no Sítio São João, em São Carlos (SP), que recebeu apenas pelo projeto 3.690 jovens estudantes para ter aulas sobre o tema. Sem contar os outros visitantes do local.

A dona Maria José de Oliveira da Silva, por exemplo, está contente. Ao lado de casa no Assentamento Ipanema, em Iperó, criou com a ajuda do Plantando Águas sua pequena Agrofloresta. Em breve, vai poder fritar a mandioca da própria colheita, cultivada sem agrotóxicos e no meio de várias árvores. Cuidadosa, ela também recebeu do projeto cisterna, fossa séptica e caixa de gordura. Durante a inauguração do Centro de Educação Ambiental (CEA), em São Carlos, dona Maria José pode observar como o Sítio São João (onde está localizado o CEA) preserva e expõe essas suas tecnologias sociais. Inspirada, ela resolveu enfeitar o local da fossa e cercá-la. “Fiz curso por meio do Plantando Águas, visitei o CEA… As pessoas passam em frente e perguntam o que é, como fazer a fossa. Eu vou ensinando, explicando”, conta a proprietária que, assim, se transforma em um agente de educação ambiental.

Sebastião da Frota Duque, Seu Sebastiãozinho, de 72 anos, está seguindo o mesmo caminho. Nasceu em Guanambi (BA). Após trabalhar em diversas cidades do estado de São Paulo desde a adolescência, permaneceu “mais de dez anos rodando debaixo de barraco e lona com entusiasmo e esperança para adquirir uma área de terra para plantar”, diz. Há cerca de uma década no Assentamento Santa Helena, em São Carlos, o xodó dele são suas 11 cabeças de gado: “Eu vou lá, toco eles, abro a porteira e falo, ‘vão embora para casa, pousar em casa, vambora; faz assim, carreirão’”. Para elas, o cuidadoso dono está cultivando um sistema silvipastoril com árvores nativas e frutíferas graças ao projeto Plantando Águas.

“Daqui dois anos vou colocar o gado na Agrofloresta. Haverá sombrinha para o gado ficar feliz. Vai ficar um serviço muito bonito. Vai ficar uma mostra pastoril, quem quiser epode vir visitar, vai ficar ali para ver”, conta o proprietário. Com a água da cisterna nova, também implementada pelo projeto, Sebastiãozinho dá agua para o gado duas vezes ao dia. Antes, tinha que usar o recurso destinado para o consumo humano, do poço coletivo. A água da cisterna irriga suas plantas e é bebida pelos outros animais. A água do jardim filtrante deve ter o mesmo fim.

Quem também investe em Agrofloresta é Carlos Aparecido Dellai. Há dez anos, ele destinou um hectare do seu terreno no Assentamento Ipanema, em Iperó, para produzir frutíferas – seu xodó na propriedade. Aos poucos, ia incrementando o plantio. Com o projeto Plantando Águas, conseguiu mudas novas (ele tem limão, laranja, goiaba, abacate, manga, banana) que darão frutos daqui cerca de um ano e meio. Hoje, sua Agrofloresta tem cerca de 250 mudas - com o projeto, conseguiu 70% de frutíferas e 30% de nativas. “Assim, mantenho a diversidade e provoco um equilíbrio melhor do meio ambiente”, explica.

Com essa ajuda, sua plantação passa por um período de transição: ele está diminuindo o uso de agrotóxicos, enriquecendo o solo e investindo em produtos naturais para combater as pragas. “É um processo longo, demorado, para produzir produto agroecológico tem que estar consciente das dificuldades. Você encontra muita resistência dos agricultores porque o custo de produção é mais caro. Exige mais mão de obra, ferramentas, máquinas, conhecimentos alternativos”, diz o produtor. “Na agricultura convencional, é só passar na loja e comprar o veneno. O defensivo orgânico você tem que fazer”, completa. Seu Carlos está animado. Com o jardim filtrante, também instalado em sua propriedade, e com o monitoramento da água da represa usada na produção, terá uma água melhor para cuidar da sua agricultura.

No decorrer do projeto, as oficinas existiram para alinharem os trabalhos dos contratados e parceiros da Iniciativa Verde (os especialistas residiam em diferentes cidades, locais que fizeram parte do projeto ou próximos a eles). Os encontros realizados com os proprietários rurais serviram para explicar as tecnologias e como devem ser feitas as instalações e cultivos, trocar conhecimentos, apresentar as necessidades de cada, debater as melhores maneiras de fazer os trabalhos nas propriedades, ver as expectativas, conferir os resultados e desenhar os próximos passos.

Será que tanto esforço rendeu frutos? Com certeza. É nítido que todos os integrantes do projeto (sejam eles contratados pela Iniciativa Verde, parceiros e participantes) aumentaram seus conhecimentos graças ao Plantando Águas. Além disso, os resultados (alguns imediatos, outros a longo prazo) fizeram com que todos se empolgassem em continuar preservando o meio ambiente e, consequentemente, a vida.

Grato, parceiros!
Aline Saffani; Amigos do Ribeirão Feijão; Associação Amigos Produtores Rurais de Itapetininga; Associação dos Remanescentes de Quilombo Kabundu do Cafundó; Cooperativa de Produção da Agricultura Familiar São Jorge (Coopas), Iperó; Cooperativa de Produção e Prestação de Serviços dos Assentados e Pequenos Agricultores de Porto Feliz (Coopap); Cooperativa Mista de Agricultores, Apicultores, Pecuaristas e Pescadores de Porto Feliz (Comapre); Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa); ETEC Escola Técnica Estadual de Piedade; Instituto de Terras de São Paulo (Itesp); Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA); Instituto Terra Viva Brasil de Agroecologia; Magno Castelo Branco; Núcleo de Agroecologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar/ Sorocaba); Prefeitura de Piedade; SAAE Serviço Autônomo de Águas de São Carlos; Prefeitura de São Carlos.

Para seguir inspirando
Após os dois anos de projeto Plantando Águas, participantes ressaltaram alguns pontos dele (moradores de cada município):

Porto Feliz:
• Bom uso da água da cisterna, poupando água da torneira e, como consequência, conta mais barata;
• Poder implantar citrus quando o SAF já estiver estabelecido;
• Percebe-se aumento na quantidade e na qualidade da água após projeto de restauração florestal;
• Quem não apóia o projeto, é porque não valoriza o planeta;
• Aproveitar 100% da área com plantio do SAF com benefícios a curto, médio e longo prazo;
• Utilização de biofertilizante como adubo;
• Oportunidade de participação em projeto sem custos;
• Vizinhos e pessoas da cidade já demonstraram interesse pelo projeto.

Itapetininga:
• Metodologias participativas;
• Flexibilidade;
• Adubação verde e cobertura do solo;
• O projeto teve começo, meio e fim;
• Aprendizado em oficinas, reuniões e pela assistência técnica;
• Satisfação pessoal;
• Éreferência para outros agricultores do assentamento;
• Oportunidade para as mulheres;
• Olhar de familiares mudou com o sucesso do plantio;
• Ajudou a melhorar a produção de anuais;
• Retorno da fauna;
• Intercâmbios para conhecer outros SAFs e realidades;
• Visibilidade deste projeto em outros órgãos de trabalho na região.

Salto de Pirapora (Quilombo Cafundó):
• Gostaram dos intercâmbios;
• Envolvimento das crianças nas atividades do projeto, gostaram de participar dos mutirões;
• Prontidão do técnico;
• Mutirão dos jovens funcionou;
• Trabalho em grupo para montagem dos equipamentos de saneamento

Fontes de água
Veja de onde é retirada a água para o consumo nos locais participantes do projeto:
Assentamento Santa Helena, em São Carlos – poço coletivo;
Assentamento Nova São Carlos, em São Carlos – poço coletivo e caminhão pipa, há dificuldade no acesso à água;
Porto Feliz – Poço coletivo com cloração antes de distribuir para as casas;
Assentamento Bela Vista, em Iperó – poços individuais e nascentes;
Assentamento Ipanema, em Iperó – poços individuais e caminhão pipa, mas não é suficiente para as atividades agrícolas;
Assentamento 23 de Maio, em Itapetininga – poço individual, há um tempo é discutido a instalação de um poço coletivo;
Assentamento Carlos Lamarca, em Itapetininga – poço coletivo e minas individuais;
Quilombo Cafundó, em Salto de Pirapora – recebe água tratada do Serviço Autônomo de Água e Esgoto (SAAE);
Piedade – varia muito, a maioria tem poços individuais. Alguns têm nascentes na propriedade.

Como é feito o monitoramento da água de forma participativa
O início dela se dá com a escolha dos parâmetros a serem avaliados. Assim, adquire-se o material para fazer essas análises específicas. Com o material em mãos, é necessário montar um coletor (que pode ser feito com uma garrafa PET ou balde). Este equipamento deve ser usado somente para isso. Depois de coletada, a água é passada para recipientes menores onde serão feitos os testes com as fitas rápidas. A leitura dos resultados é baseada em cores e pode ser feita em uma tabela que indica a concentração na água de cada parâmetro avaliado. Os resultados devem ser anotados para a montagem de um banco de dados e, em seguida, comparar a qualidade da água do mesmo local ao longo do ano e entre diferentes situações.

Essa água é de beber?
Onde foram feitas as análises do recurso:
Itapetininga – açude, nascente, represa e poço coletivo;
Piedade – rio;
Iperó – represa, nascente, rio e açude;
Salto de Pirapora – rio e açude;
São Carlos – represa, poço coletivo e rio;
Porto Feliz – represa, açude e poço coletivo.

*Texto publicado originalmente na terceira edição da Revista Plantando Águas.

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