O verde faz bem

O verde faz bem

Categoria(s): Arquivo

Publicado em 22/01/2019

 

Dr. Paulo Saldiva estuda os efeitos da poluição e das mudanças climáticas na saúde das pessoas

Por Marina Vieira Souza 

Quando o médico patologista Paulo Saldiva começou a estudar os efeitos da poluição urbana na qualidade de vida das pessoas, a reação de seus colegas foi de descaso. “Tinha gente que parava na frente do meu laboratório e dizia: olha um espaço inútil que a Faculdade de Medicina (da Universidade de São Paulo - USP) cedeu.” Hoje, porém, ele se tornou referência na área, preside o Instituto de Estudos Avançados da USP e participa de diversos estudos que comprovam que cuidar do meio ambiente faz bem para a saúde. Convidado a falar à REVISTA INICIATIVA, o médico deu um amplo depoimento sobre essa relação, começando pelos benefícios de se plantar mais árvores.

Paulo Saldiva - A mais óbvia é o sequestro de carbono, para tentar melhorar as perspectivas globais de mudança do clima. Mas isso toma tempo, as pessoas vão plantar hoje para tentar estabilizar o clima daqui a oitenta anos. E, num mundo cada vez mais individualista, por que se preocupar com as próximas gerações? Então, um bom argumento é demonstrar quais são os benefícios imediatos do plantio de árvores.

SEGURANÇA HÍDRICA
Todos sabem que houve recentemente o desabastecimento de água, o que envolve vários aspectos, como a ineficiência da rede e hábitos culturais de desperdício, mas também o assoreamento de nascentes e a perda de capacidade de produção de água. E toda vez que falta água, a gente adoece, pois a falta de água está invariavelmente relacionada com queda da sua qualidade.

Como existe uma contaminação de base dos reservatórios, para prover a qualidade da água é preciso aumentar o uso de produtos de desinfecção.

A segunda coisa é que, quando fazem rodízio - interromper a rede de abastecimento de um lugar e derivar para outros -, a gente perde água ao longo da distribuição. A pressão do sistema cai e o que vaza para fora pode vazar para dentro. Ou seja, a água que estava limpa no ponto de distribuição, fica suja com esgoto no meio do caminho. Por isso que, todas as vezes em que ocorreu rodízio de água na rede de distribuição, aumentaram brutalmente as taxas de diarreia e internação de crianças por desidratação em São Paulo.

A maior parte das pessoas vai tirar isso de letra, mas se for um prematuro, ou um senhor de idade que já desidrata nos períodos de calor, não é tão simples. Se ele tem uma coronária entupida e tiver uma diarreia, as chances daquilo fazer um trombo é maior, e, com isso, resultar num AVC ou um infarto do miocárdio.

Isso é um benefício imediato, que vai além do sequestro de carbono de longo prazo. Outro aspecto que existe é o de controle de temperatura.

ONDAS DE CALOR

A cidade de São Paulo, quando desidrata, forma ilhas de calor. Nós temos uma zona de conforto térmico, que em São Paulo é em torno de 8 a 10 graus. Mas quando esquenta acima de 27 ou esfria abaixo de sete, começa a aumentar a mortalidade e, no extremos, há o aumento da mortalidade em 50%.

Aumento de 50% em uma cidade em que morrem, mais ou menos, 200 pessoas de morte morrida por dia, são 100. Ou seja, três dias de onda de calor causam mais ou menos o mesmo número de mortes que a febre amarela causa num ano.

Os motivos variam de acordo com as faixas etárias. Abaixo de cinco anos é por doença respiratória, e, acima de 70 anos, por doença cardiovascular.

A doença respiratória fica fácil. Se o tempo está seco, o muco que reveste as vias aéreas também seca, e a remoção de bactérias fica difícil. Quanto mais tempo a bactérica fica no corpo, mais ela pode gostar de ficar ali e se dividir.

E nos períodos de calor, as perdas insensíveis de água (pela respiração e pela transpiração) aumentam. Esse fato faz com que o volume circulante de sangue fique mais baixo e os nossos vasos mais dilatados. O que o coração precisa fazer? Trabalhar mais. Se ele já não estiver bom, se já tiver vasos entupidos, tem-se um caminho para o infarto.

Além disso, toda vez que o sangue está mais concentrado, as chances de se ter um coágulo em vida, um trombo, que, dependendo de onde ocorrer, pode levar a um infarto, aumentam. Isso pode ocorrer no intestino, no coração, no cérebro.

ÁREAS VERDES E A BIOFILIA

São Paulo ficou careca no meio, só tem cabelo na zona norte e na zona sul. E não dá para fazer como o careca real, que deixa crescer dos lados e faz aquelas arquiteturas capilares exóticas, que ninguém percebe. Com a nossa cobertura vegetal não dá para fazer isso.

A cidade precisa recompor a vegetação. Já existem evidências que a vizinhança de uma área verde de um parque, que pode ser usufruído, reduz significativamente o risco de morte por infarto. Não só pelos serviços ambientais que ele presta, reduzindo poluição e controlando umidade e temperatura, mas é que também se encontram outras pessoas, não há a sensação de solidão em uma cidade com tanta gente que se passa desapercebido.

As taxas de suicídio e de depressão também caem nas vizinhanças do parque. Isso se chama biofilia. Aparentemente, temos um receptor ancestral, por milhões de anos de convivência com a natureza, que beneficia estarmos imersos em algum verde por algum momento. Tem um estudo recente do Instituto de Saúde Global da Universidade de Barcelona, que fez um acompanhamento de crianças para estudar neurodesenvolvimento. E eles notaram um aumento do volume cerebral com a proximidade de crianças bebês a áreas verdes. Existe, principalmente em países nórdicos e no Japão, um programa de imersão verde dos executivos. Ao invés de fazer ginástica laboral, ir para o mato. Isso tem se traduzido em aumento da imunidade, redução das citocinas pró-inflamatórias e do stress. E todas os estudos que comparam hospitais que têm áreas verdes mostram que, ajustado por um nível de gravidade, neles as pessoas saram mais rápido.

VEGETAÇÃO E SANEAMENTO

Quando caiu demais o consumo de água em São Paulo, teve um gênio que, pensando do ponto de vista da gestão da empresa, falou: ‘vamos aumentar, então, o preço da água’. Isso não é uma maldade da Sabesp, é que eles estão acostumados a operar uma empresa. Quando se tem um sistema de distribuição comercial, a água passa a ser uma commodity. Mas a água é um commom, assim como o ar, a terra, o conhecimento. Veja, nós estamos compartilhando conhecimento, você está me ensinando coisas sobre o que faz o Plantando Águas e eu estou tentando passar aquilo que eu sei. Nós compartilhamos conhecimento e cada um sai com o seu. Como se precifica isso? Uma coisa que não vende. Na minha opinião, conhecimento em saúde deveria ser um commom. Mas hoje ele é uma commodity. Os grandes laboratórios, os três maiores grupos de laboratórios farmacêuticos têm, cada um, um capital maior que o PIB de quase 80% dos países do mundo.

A massa cerebral de crianças aumenta quando elas brincam na natureza

Esse é o grande problema quando se lida com água e se precifica a água, porque não é que ela vai acabar, ela existe, mas a gente não pode usar. Estamos com a torneira seca e o rio Tietê e o Pinheiros e a Billings cheios. Nós começamos a utilizar o rio Tietê hoje mais ou menos a 180km, 200 km de São Paulo. Que é o tempo que demora para tratar aquele rio. O fato da gente não ter feito um parque, um plantio na marginal e retificado o curso do rio é uma perda absurda. Nós perdemos nossos rios e transformamos em latrina.

Por isso eu entendo o plantio de árvores como instrumento de educação. Além de produzir água, além de fazer sequestro de carbono. Envolve toda a recuperação de uma atitude, para a qual estamos programados geneticamente ao longo da evolução. Se você coloca uma criança perto do verde, o cérebro cresce. Morar perto do parque reduz em 30% o risco de infarto do miocárdio. Isso é mais que betabloqueador e estatina. Como fazemos para que os cardiologistas entendam e promovam isso?

Morar perto de um parque diminui as chances de infarto e depressão, não só pela qualidade do ar e da temperatura, mas pela convivência com outros

UM FUTURO MELHOR

São Paulo está melhorando, está recuperando áreas verdes. Dos estados brasileiros, foi o que inverteu a tendência de destruição. A Mata Atlântica está se replantando. A lei de que não se pode construir a tantos metros de um corpo d’água se mantém, há incentivo para isso. São Paulo passou do limite e a derivada, que era negativa, está voltando, ainda não com a velocidade que gostaríamos, mas está revertendo uma tendência.

E tem gente como você, que não existia quando eu tinha a sua idade. Na faculdade de medicina, estudar poluição ou meio-ambiente era considerado uma excentricidade. Ainda continua sendo, mas tinha gente que parava na frente do meu laboratório e dizia: ‘olha um espaço inútil que a Faculdade de Medicina cedeu’. Hoje já mudou um pouco. Acho que estamos em um caminho virtuoso e que isso deveria ser colocado em escolas.

Por exemplo, quando começou o investimento em ônibus em São Paulo, ouvia-se no rádio que o corredor de ônibus estava atrapalhando. Bom, o que isso traduz? Para o indivíduo que foi criado no mundo onde o carro era excelência, aquilo era uma violência. A mudança de paradigmas acontece em todo lugar. Na ciência, às vezes é preciso esperar que uma geração de cientistas morram para vir uma nova visão.

Fora que plantar é um esforço coletivo. Por isso, acho que vai além da produção de água, ela produz cidadania, alma, empatia, um sentimento coletivo que falta hoje.

POLUIÇÃO E SÁUDE

No mundo são 7 milhões de pessoas que morrem por poluição. Destes, 3 milhões e meio são de poluição das ruas, que hoje significa predominantemente transporte nas grandes cidades.

Eu sou patologista então eu vejo como estão os pulmões dos paulistanos. E, perguntando para a família, para saber quanto tempo a pessoa passa no trânsito, se fumava, se convivia com fumantes, se trabalhava fora de casa, a gente tem uma conta que diz que em mais ou menos em uma hora e meia, duas horas no carro, fuma-se em torno de um cigarro. Isso faz um monte de gente fumar sem escolha. Mas está mudando também.

Antigamente, se entrava na faculdade de medicina, e os pais, se pudessem, lhe davam um carro. Agora, não. Existe um nova tendência de pessoas que não precisam usar o carro, usam um aplicativo, ou uma bike. Hoje as bikes elétricas estão bombando por aí. Isso está acontecendo nos Estados Unidos, a pátria do automóvel, do desenvolvimento rodoviarista. O número de jovens que chegam na idade de tirar a carta e não tiram está crescendo 3% ao ano, todo ano, nos últimos 5 anos. E a indústria de carros já percebeu isso. Acho que estamos na mudança certa.

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