Metas de Paris são insuficientes para conter o avanço da temperatura global

Metas de Paris são insuficientes para conter o avanço da temperatura global

Categoria(s): Arquivo

Publicado em 21/06/2018

O engenheiro florestal e consultor Tasso Azevedo tem sido uma das mais importantes referências na área das mudanças climáticas. Como coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima e também coordenador do Projeto de Mapeamento Anual da Cobertura e Uso do Solo no Brasil (MapBiomas), ele acompanha há anos a evolução tanto das discussões quanto das ações deste que é um dos maiores desafios da humanidade no Século XXI.

Em entrevista exclusiva para a revista INICIATIVA, Tasso Azevedo disse que acredita no cumprimento do Acordo de Paris (definido na Conferência Climática em 2015), mas que ele não será suficiente para conter o avanço na temperatura média do planeta em 1,5º.

INICIATIVA - Como você avalia o atual momento das mudanças climáticas? Quais as expectativas para o novo relatório do IPCC?
TASSO AZEVEDO - Os impactos das mudanças climáticas têm se mostrado cada vez mais claros com os seguidos recordes de aumento da temperatura média global, furações e secas prolongadas. Ainda assim, vivemos um momento de altos e baixos na agenda do clima. A saída dos EUA do Acordo de Paris foi um baque, mas a China acelerou o avanço de seus programas e deve atingir ainda este ano suas metas de mitigação previstas para 2020. O avanço das energias renováveis é notável e claramente tem provocado a desaceleração e, em alguns casos, o freio completo dos investimentos em carvão. Por outro lado, houve pouco impacto ainda na indústria do petróleo, onde investimentos vultuosos ainda persistem, aumentando a capacidade de produção. A aposta é que a eletrificação dos transportes se acelere rapidamente nos próximos dez anos a ponto de reverter a demanda crescente por combustíveis fósseis.
O relatório do IPCC que será publicado em outubro deve sinalizar a possibilidade ainda de limitar o aquecimento a 1,5ºC, mas isso exigirá um esforço brutal de redução das emissões nas próximas duas décadas, além de um enorme esforço de multiplicar a captura de carbono. Cientistas envolvidos no relatório têm sinalizado que mesmo os cenários de aquecimento de 1,5ºC não são nada confortáveis. O grau de ambição dos governos, empresas e comunidade global terá que aumentar e muito para enfrentar o problema

I - Acredita que ainda é possível cumprir o que determina o Acordo de Paris? Aliás, o acordo de Paris é suficiente para um futuro climático sustentável?
TA - Acredito que os países poderão cumprir suas metas para o Acordo de Paris, muitos devem inclusive excedê-las, até porque muitas não são realmente ambiciosas e nenhuma é verdadeiramente destrutiva. O problema é que a soma dos esforços de redução prometido pelos países está ainda muito longe de atender a demanda de emissões necessária nas próximas décadas. Diferentes estudos apontam que cumpridas todas as metas apresentadas a temperatura global estaria numa trajetória de aumento de 3 a 5ºC até o final do século. A esperança é que ao longo da próxima década as metas dos países sejam progressivamente revisadas acompanhando os sinais de inovação e geração de escala da implementação de soluções para reduzir as emissões líquidas do planeta. O Acordo de Paris tem uma arquitetura e modos de operação que permitem esse progresso com as revisões quinquenais dos compromissos.
Eu acredito que o grosso do impulso para estas transformações virá da confluência entre pesquisa e inovação, boa regulação pública, forte investimento privado e amplo envolvimento da sociedade civil.

I - Neste cenário como se encontra o Brasil? Quais os principais problemas que não estamos enfrentando como deveríamos?
TA - O Brasil deve cumprir sua meta de redução de emissões com certa facilidade, infelizmente puxado mais pela desaceleração econômica do que por uma efetiva política de mudanças climáticas.
A agenda de combate ao desmatamento, nossa principal fonte de emissões, está patinando. Depois de da forte redução das taxas de desmatamento na Amazônia entre 2004 e 2012 nos últimos 5 anos foram de crescimento das taxas. Estamos longe de cumprir a meta de ficar abaixo de 3900 km² em 2020.
A implementação do Plano ABC (Agricultura de Baixo Carbono) também anda a passos muito lentos. O crédito destinado ao Plano, se considerar apenas investimento (sem custeio), não chega a 10%, e seu volume representa pouco mais de 1% do total destinado ao Plano Safra (de financiamento aos agricultores). Ainda assim, na safra 2016/2017 a contratação não chegou a 2/3 dos recursos disponibilizados principalmente a burocracia associada. É preciso tornar a Agricultura de Baixo Carbono regra para todos os investimentos do Plano Safra e não apenas uma fração.
Os investimentos no RenovaBio, embora bem intencionados, ainda não mostraram qualquer efeito na diminuição da demanda de combustíveis fósseis. Por outro lado, o incentivo à eletrificação dos transportes - uma tendência global - é praticamente inexistente no Brasil. O novo regime automotivo em discussão - Rota2030 – quase que ignora solenemente esta tendência.

I - O Brasil estipulou uma meta de recuperação de 12 milhões de hectares. Você acha factível? O que deveria ser feito para que a agenda da restauração avance no Brasil?
TA - Se considerarmos as áreas em regeneração natural esta meta será batida sem qualquer esforço adicional. Só na Amazônia o Programa TerraClass identificou mais de 14 milhões de hectares em recuperação por regeneração natural. A questão não é atingir o número de 12 milhões de hectares, mas maximizar os benefícios ambientais e socioeconômicos desta recuperação. Por exemplo, é preciso garantir a recuperação de matas ciliares e áreas prioritárias para conservação e ao mesmo tempo é importante usar sistemas que possam estar integrados a cadeias de produção florestal para ampliar a geração de renda associada a estas áreas.

I - O quanto das crises hídricas mais recentes ocorridas no Brasil podem ser colocadas na conta das mudanças climáticas?
TA - É difícil fazer afirmações de ligação direta entre elas, mas estas crises são certamente compatíveis com os cenários de impacto previstos para as mudanças climáticas.

I - Em sua opinião o que será necessário fazer para minimizar os efeitos da escassez hídrica aqui no Brasil?
TA – Entre as ações para mitigar os efeitos da escassez também são necessárias políticas e obras para redução de desperdício e aumento da eficiência no uso da água. Em alguns lugares serão necessários investimentos em dessalinização e outras obras de engenharia.
Mas a garantia da segurança hídrica no Brasil passa certamente pela manutenção e de recuperação da vegetação nos nossos mananciais. Um levantamento recente feito a partir dos dados do MapBIomas mostra que quase um terço das 84 bacias hidrográficas brasileiras têm menos de 30% de cobertura florestal. Este quadro precisa ser revertido.

I - Qual é, na sua opinião, o papel da iniciativa privada em relação não só às mudanças climáticas, mas também na recuperação de ecossistemas?
TA - É fundamental. Governo não planta, colhe ou gerencia produção em propriedades rurais. Quem faz isso é a iniciativa privada, com pequenos, médios e grandes produtores e toda cadeia de produção e comercialização de produtos e serviços. As decisões de investimento e comportamento da iniciativa privada são fundamentais para viabilizar a economia de baixo carbono e a chamada economia regenerativa.
Quando a espírito empreendedor da iniciativa privada se une a uma agenda pública de indução e fomento à inovação, encontramos as condições perfeitas para acelerar a transição para uma economia de baixo carbono. 

Esta matéria foi publicada na Revista Iniciativa #1, disponível para download no site www.iniciativaverde.org.br/biblioteca-nossas-publicacoes

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