Marussia Whately: Vivemos uma crise hídrica. E agora?

Marussia Whately: Vivemos uma crise hídrica. E agora?

Categoria(s): Arquivo

Publicado em 31/08/2015

Por Isis Nóbile Diniz

Atualmente, a consultora na área de recursos hídricos e sustentabilidade Marussia Whately coordena a Aliança pela Água, coalizão de organizações da sociedade para propor soluções para a crise da água em São Paulo. Desde o fim dos anos 1990, ela trabalha na temática ambiental, principalmente, com a gestão de fontes de água. Tantos anos de empenho renderam frutos como publicações especializadas e um conhecimento único. Na entrevista a seguir, a especialista compartilha com objetividade um pouco da sua experiência e indica um caminho para superarmos o atual problema hídrico.

Acredita que a relação com a água da população no Sudeste, agora, mudou? Ainda estamos no meio de uma crise na região Sudeste, principalmente, em São Paulo. Medidas que acontecem na área rural e urbana como restrições de abastecimento e de outorga acabam influenciando e criando uma relação diferente das pessoas com o recurso. Fazer com que essa nova relação seja sustentável e duradoura é o desejo, embora seja cedo para dizer se conseguimos utilizar a crise para mudar o comportamento.

A atual crise hídrica vivida no Sudeste havia sido alertada por alguns pesquisadores. Ela é decorrente do quê?
Em São Paulo, podemos dizer que a crise é uma combinação de quatro fatores. O primeiro está relacionado com a questão climática. A região do Sistema Cantareira é o maior manancial que abastece a Região Metropolitana. Tivemos um ano seco seguido por dois com menos chuva, acumulando um déficit de chuva e, consequentemente, de recuperação das represas. O modelo de gestão de saneamento e da água atual, ainda visa como solução buscar água cada vez mais longe, em vez de cuidar das fontes próximas como o rio Pinheiros, as represas Billings e Guarapiranga. Também há pouco cuidado com a gestão da demanda, há uma procura em aumentar a oferta. Historicamente, em São Paulo, temos a degradação de fontes de água em áreas rurais, com exceção do Vale do Ribeira, por conta do desmatamento e do uso que se faz do entorno das represas. Por exemplo, a região dos Sistema Cantareira, tem 20% de vegetação, com certeza se tivesse mais resistiria melhor à estiagem. Na área urbana, há a degradação de quase todos os corpos de água. O quarto fator tem a ver com algo que identificamos no ano passado: a falta de transparência na gestão da água. Existe um enfraquecimento dos Comitês de Bacias Hidrográficas. E em 2014 as eleições agravaram a situação, pois medidas impopulares como a redução da distribuição da água não foram tomadas.

Por que os comitês enfraqueceram?
É visível o enfraquecimento e a não implantação de alguns de seus instrumentos como cobrança do uso da água. Ao mesmo tempo, há a transferência do papel de gestão dos recursos hídricos, que ficou muito mais com a Sabesp do que com os órgãos gestores. Existem incompatibilidades porque a Sabesp presta serviço de água e de esgoto, o papel dela não é necessariamente fazer a gestão das políticas públicas de recursos hídricos e saneamento.

Quais ações podem ser tomadas para termos água no momento?
Entre as medidas de curto prazo estão: criar força tarefa para a gestão de crise reconhecendo que ela é o resultado da combinação de vários fatores e sair dela exigirá a atuação conjunta vários atores. Em fevereiro, foi criado um comitê de crise pelo Governo do Estado de São Paulo que só se reuniu uma vez. Deve haver um plano de emergência e contingência para se reunir com a sociedade e com os atores que irão se adequar. Obras emergenciais para interligar a represa Billings com o Sistema Alto Tietê e a ampliação do que vai para a represa Guarapiranga não, necessariamente, melhoram a água. Aliás, problemas de qualidade da água irão se intensificar. Em médio prazo, uma das ações deve ser a recuperação e proteção dos mananciais urbanos e rurais. A recomposição florestal nas áreas de preservação permanente deve ser iniciada hoje, porque ela não acontece de um dia para outro. Além disso, talvez uns dos grandes desafios atuais considerem as projeções de que eventos climáticos extremos aumentam em frequência e em quantidade e o Brasil sentirá esses efeitos por meio da água (escassez e abundância).

Qual a importância de recuperar com florestas as matas ciliares e regiões de mananciais?
A qualidade ambiental das áreas produtoras de água está diretamente relacionada com a capacidade de produção de água dessas regiões. Hoje, temos no Brasil três fontes principais de degradação da água: poluição por esgoto urbano e industrial (quase 50% dos rios que cortam áreas urbanas têm qualidade ruim ou péssima); fertilizantes e agrotóxicos (dados da Agência Nacional de Águas, mostram que quase 30% de reservatórios apresentam alto grau de poluição não apenas urbana); e desmatamento (a longo prazo e médio, essa água que passa a escoar superficialmente deixa de recarregar os lençóis e de contribuir para garantir maior afluência nos rios). A medida coque esse solo está exposto, vai secar mais rápido e a recarga ficará comprometida. A vegetação é fundamental para ajudar no ciclo vigoroso da água.

O CAR pode de alguma maneira ajudar a recuperar os recursos hídricos?
Sim, pode e é desejável. Apesar dos retrocessos, o atual Código Florestal visa recuperar as áreas, garantir um mínimo de Reserva Legal. Do ponto de vista do produtor rural, ele dá mais segurança na gestão dos recursos hídricos. Afinal, o órgão ambiental pode trabalhar até nas compensações da Reserva Legal visando a regeneração e melhoria das condições ambientais. Nesse sentido, todo processo de adequação ambiental na área rural é desejável e deve ser pensado na recomposição de serviços ambientais para produção de água.

Quais as perspectivas se o cenário não se alterar?
O cenário em relação a água é bastante preocupante, não só do ponto de vista natural. A tendência em relação a água é aumento do consumo, poluição, exploração de aquíferos. Somado a isso, temos a intensificação dos eventos climáticos extremos e a mudança do clima em função do aumento da temperatura do planeta, o que traz um alerta grande da disponibilidade de água. Daqui para frente é necessário construir uma nova cultura do cuidado com a água. Cuidar nas áreas urbanas e rurais, tratar e reutilizar sempre que possível, garantir que um uso não prejudique o outro, tarifas justas e distribuição eficiente e controle e participação social. Os problemas em relação à água tendem a ficar cada vez mais intensos e frequentes, por isso todas as medidas são fundamentais para construirmos segurança hídrica.

Foto: Divulgação

*Texto publicado originalmente na terceira edição da Revista Plantando Águas.
 

 

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