Fundição orgânica

Fundição orgânica

Categoria(s): Arquivo

Publicado em 31/01/2019

Texto: Marina Vieira Souza

Iperó, a 25km de Sorocaba e com pouco mais de 36 mil habitantes, é uma das cidades participantes do Plantando Águas, que atua nos assentamentos Ipanema e Horto Bela Vista. A história da cidade remete aos tempos coloniais. A região já era habitada por índios Tupiniquins - que nomearam seu rio de Ipanema, “sem peixes” - quando, em 1589, uma primeira incursão de portugueses descobre ali uma jazida de minério de ferro e diorito. Dali até 1895, quando é desativada a Real Fábrica de Ferro de Ipanema, foram feitas diversas tentativas de extrair os minérios, passando por técnicas de fundição e construção de fornos diferentes.

Depois do ferro, foi instalado na região o Centro Nacional de Engenharia Agrícola (CENEA), que usava o terreno para testes de máquinas e insumos. O CENEA foi desativado em 1990 e a terra, vazia, foi destinada para a reforma agrária. Em 15 de maio de 1992, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) fez ali uma das maiores ocupações de sua história até então, com mais de 800 famílias, como forma de pressionar e acelerar a destinação das terras. Cinco dias depois, um decreto cria, em parte deste mesmo território, a Floresta Nacional (Flona) de Ipanema.

A criação desse espaço de conservação colocou entraves à criação dos assentamentos. Maria Rodrigues Santos, que participou do acampamento e hoje tem um lote no Horto Bela Vista, conta que o início foi difícil. “Houve quatro pedidos de despejo, e muita discriminação da sociedade na região”, relembra. Hoje ela diz que a relação melhorou por conta da produção de hortaliças e frutas dos assentamentos, que movimentam a cidade. Gabriel Boaventura, filho de um casal que participou do acampamento, também cita essa produção. Ele nasceu no assentamento Ipanema e agora, com 19 anos, ajuda a tocar o sítio. “Foi bom crescer e ver as mudanças. Antes só tinha colonhão, e agora a gente produz alimento saudável”, relata. Tanto a família de Gabriel como a de Maria trabalham com agricultura biodinâmica, que não utiliza agrotóxicos e leva em consideração ciclos da natureza, como o da lua, para fazer o manejo das plantas. Gabriel acredita que esta é maneira correta de produção, por não agredir o meio ambiente. Para Maria, a motivação vem de uma filosofia em que o alimento é visto como sagrado. “A nutrição pode ser pela vida, para gerar sabedoria e uma conexão com a espiritualidade. Ou pode te deixar doente”, reflete. “Nos meus quase 3 mil metros de sistema agroflorestal (SAF), tiro alface, cenoura, pimentão, berinjela... Se você colocar isso no caderno, a diversidade e a qualidade para a sua nutrição, a gente dá show de bola!”, completa.

Ambos participaram da primeira fase do Plantando Águas, que, entre outras coisas, implantou SAFs e fossas biodigestoras para tratamento de esgoto nos lotes, promovendo assim sua adequação ambiental. “Projetos como o Plantando Águas sinalizam para gente que se houvessem políticas públicas ou uma política da sociedade em torno disso, é possível dar um sentido diferente de sucesso para os assentamentos e para a agricultura não-convencional”, conclui Maria.

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