Agroflorestas crescem na Amazônia

Agroflorestas crescem na Amazônia

Categoria(s): Carbon Free

Publicado em 30/03/2020

Texto: Marina Vieira | Fotos: Lucas Pereira e Jéssica Campanha

O mundo acompanhou estarrecido o fogo consumir grandes trechos da Floresta Amazônica no seu período seco, especialmente nos meses de julho e agosto. As taxas de desmatamento, que até 2015 caíam progressivamente, voltaram a subir, registrando 9.762 km² perdidos na última medição do Prodes/INPE - um aumento de 30% em relação ao período anterior.

Desde 2017, o programa Carbon Free, da Iniciativa Verde, tem levado recursos para a implementação de 36 hectares de agrofloresta em assentamentos rurais na região da Transamazônica, em três cidades: Anapu, Pacajá e Senador José Porfírio. Duas destas aparecem na lista das 10 cidades brasileiras com maior número de alertas de desmatamento este ano.

A destruição da floresta não é novidade, mas toma uma nova dimensão no contexto de um mundo superaquecido. Florestas são grandes reservatórios de carbono. Quando derrubadas ou queimadas, liberam esse carbono na atmosfera, na forma de CO2, um dos principais gases do aquecimento global. Essa mudança no uso da terra é justamente o que faz o Brasil ser um dos maiores emissores de carbono do mundo, mesmo tendo uma matriz energética que é, em sua maior parte, limpa.

Se por um lado o desmatamento é o principal emissor do país, é na conservação e restauração de florestas que se vê o maior potencial de contribuição brasileira na limitação das mudanças climáticas. Por isso, o Carbon Free faz suas compensações através da restauração florestal.

Na Amazônia, o programa incorpora ainda mais um elemento, utilizando sistemas agroflorestais (SAFs). Além de recuperarem o solo e absorverem carbono, SAFs oferecem uma fonte de renda para as 29 famílias envolvidas. Açaí, cacau, banana, cupuaçu, goiaba, mandioca e urucum são alguns dos produtos que já podem ser colhidos nas áreas do projeto, feito em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).


SAFs recuperam áreas degradadas e já dão frutos, como cacau e urucum

Renda que vem da floresta

Estudo feito na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq - USP) apurou que o cacau de SAFs rendeu no mínimo seis vezes mais do que o gado convencional por hectare na Amazônia. A pesquisa entrevistou 95 agricultores de assentamentos da Transamazônica e mostra que “é possível, é viável, os SAFs estão aí e eles são rentáveis” afirma o autor, Daniel Braga. “Nós temos isso comprovado, na teoria e na prática. A partir disso, por que não fortalecer os SAFs com cacau e outras espécies?”, instiga.

Braga fala do enorme potencial de reabilitação que o SAF com cacau oferece para uma terra degradada. “A folha do cacau tem um tipo de composição que faz com que ela demore mais tempo para se decompor no solo, o que é bom porque forma uma camada de material orgânico expressa sobre ele, evitando a perda de nutrientes e a degradação”, explica.

Além das folhas, as raízes do cacau e das outras árvores também protegem o solo, e o sistema como um todo protege a biodiversidade genética das árvores. “O SAF com cacau cumpre várias funções que a floresta também cumpre. É muito eficiente”, afirma. Dentre os principais sistemas produtivos, afirma, o SAF é o mais eficiente para a conservação florestal.

Outro estudo, de Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais, estimou que, em 2015, um hectare de açaí chegava a render cerca de R$26.800, contra R$2.700 para cada hectare de soja.

Estudos assim indicam que é possível ter desenvolvimento econômico na Amazônia sem a derrubada da floresta, e que, na verdade, produzir em consórcio com ela é muito mais lucrativo.

Projeto envolve 29 famílias da região de Altamira, no Pará

Resistindo

Lucas Pereira, diretor da Iniciativa Verde, conta que nenhum dos 36 hectares do Carbon Free Amazônia foi atingido pelos incêndios na região, nem cedeu à pressão por desmatamento. Ele conversou com Matias Pereira, um dos agricultores participantes, em visita feita em setembro. Matias reafirmou à equipe seu compromisso com o projeto. “Madeira eu não quero mais tirar, de maneira nenhuma. Eu gosto muito da mata. O ar que a gente respira nela é mais gostoso que o ar de fora. É frio, geladinho, gostoso mesmo”, contou o assentado rural.

E reforçou a importância da assistência e investimentos. “Eu quero preservar a mata. Só que eu dependo de vocês. Porque se vocês não me ajudarem, vai ficar difícil pra mim, e vai ficar difícil pra vocês também, que estão lá fora”, afirmou.

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